Sexta no Supermercado

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Sexta-feira à tarde, depois de uma semana de trabalho árduo, com as minhas tarefas profissionais em dia e há poucas horas de receber amigos em casa para uma reunião informal, dirijo-me ao supermercado para algumas compras de última hora. Nada de papel na mão, embora minha esposa me recomendasse.  “- Só vou comprar as coisas que preciso para o patê de gorgonzola, respondi.” e saí para as compras pensando que, afinal de contas, minha especialidade de tantos anos não precisa de lista. Tenho tudo na cabeça. E não precisei mesmo. Pelo menos não para o patê.

Durante a semana já tinha comprado cervejas, águas e refrigerantes, whisky – na minha turma poucos tomam – salgadinhos variados incluindo alguns para esquentar na hora, uma torta salgada que não-sei-quem ficou de trazer, “jamon serrano” o presunto cru espanhol que eu e minha família adoramos, enfim, mais coisas do que os convivas dariam conta de comer. Minha saída naquele momento era só pelo prazer de oferecer também o patê que parentes e amigos estão acostumados a degustar quando vêem à minha casa.

Apesar de ser sexta-feira, estacionei sem problemas e disse a mim mesmo que ser autônomo, empresário de si mesmo, tem sim vários inconvenientes, mas tem ao menos os prazeres de ir fazer compras as quatro da tarde de um dia útil.

E lá estou eu examinando uma coisinha aqui, outro ingrediente ali, apenas com a cesta pendurada no braço, já com alguns produtos dentro quando um funcionário que estava arrumando alguns laticínios ao meu lado me disse:
– Humm, esse gorgonzola com um pão italiano não tem quem não coma. Eu nem tinha percebido sua presença, absorvido que estava nas minhas compras. Virei para o lado e deparei com uma fisionomia jovem e simpática que acrescentou com um sorriso franco: – Desculpe senhor, é que vi na sua cesta o gorgonzola e acontece que acabei de arrumar nos cestos os pães italianos que chegaram neste minuto. Nem sei como o senhor vai consumir, mas como eu adoro queijo, pensei logo no pão italiano. Acho que pensei alto, né?

– E ainda bem que pensou alto – retruquei. Eu tenho tudo o que preciso, mas se você não faz o seu comentário eu ia voltar prá casa sem o pão. Nem me lembrei disso. Obrigado. E lá fui eu pegar o pão. Onde é que as pessoas iriam passar o patê se eu esquecesse de levar o pão? Ou teria que sair de novo ou ligar prá algum dos convidados e pedir que comprasse pão.

Já no carro e, claro, dando razão à minha esposa, lembrei da naturalidade do comentário do rapaz. Não sei se ele fez de propósito. Acho que não, porque foi muito espontâneo. Mas justamente a espontaneidade dele não só me ajudou a lembrar de um item importante na minha compra, como humanizou o contato. Por alguns brevíssimos instantes, aquele rapaz “pensou junto comigo”, “entrou no meu momento” e com isso visualizou uma associação de produtos que, consumidos em conjunto aumentariam meu prazer. Naquele instante ele me ajudou a comprar.

É claro para mim que só se pode ajudar alguém, de fato, quando se “pensa junto”. Especialmente nos processos comerciais, mas em outros campos da atividade humana também. No meu papel de consultor eu tenho que exercitar o tempo todo essa postura. Quando atuo como psicólogo ocorre a mesma coisa.

Quando treino profissionais de venda, costumo falar longamente sobre o que é “pensar junto”. Alguns cursos falam sobre empatia, outros falam de colocar-se no lugar do cliente, outros ainda usam a linguagem figurada para recomendar que os vendedores “calcem os sapatos do cliente”.

Tudo isso é válido e ajuda a passar o conceito que se pretende. Mas acho que ao pensar junto, consegue-se ir mais além. Para mim o pensar junto possibilita uma visão do futuro, do momento seguinte.

O que o rapaz fez com seu comentário foi me apresentar a “antecipação do prazer”. Apenas porque num segundo ele pensou junto comigo. E fez isso de forma tão honesta, tão verdadeira, que não havia mais necessidade de qualquer argumento. E olha que eu tenho certeza de que a intenção dele nem era vender. Pois ele fez mais do que vender. Ajudou a comprar. A diferença é sutil, mas o resultado é muito mais completo. Lá fui eu buscar o pão italiano.

É isso! Qualquer funcionário de um supermercado ou outros tipos de estabelecimento pode ajudar a comprar. Mas isso só funciona mesmo quando feito desse jeito. Honesto, sincero, quase como uma recomendação.

Preciso voltar lá prá agradecer a ele. Meu patê foi novamente um sucesso, e parte disso eu devo ao rapaz que não sei se era promotor, repositor, vendedor, gerente, não sei. Mas naquela sexta-feira foi meu consultor pessoal.

 

 

Sobre o autor

André Ganzelevitch

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André Ganzelevitch é consultor Empresarial e Profissional de Treinamento desde 1981.É autor de mais de 60 títulos de Programas de Treinamento, Workshops e Palestras para diversas entidades de apoio empresarial, para aplicação presencial e à distância.

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