Dicas&Toques 105 – “Causus” de Consultor II – O Aluno Certo no Curso Errado.

D&T70

No começo dos anos 90, quando o governo Collor retirou do Ministério da Indústria e Comércio o antigo Cebrae e ele passou a ser Sebrae com “S”, uma entidade independente, a sede em São Paulo era num pequeno prédio na Rua José Getúlio, no bairro da Liberdade. Pequeno e apertado para o imediato sucesso que a nova instituição alcançou. Afinal, pela primeira vez surgia no Brasil uma entidade realmente voltada para a micro e pequena empresa.

Num dos andares, não lembro mais qual, havia três salas de aula, uma ao lado da outra, separadas por divisórias que ainda não isolavam adequadamente o som.
Entre nós, consultores convidados a ministrar cursos lá, brincávamos às vezes que se o aluno participasse de um curso na sala do meio, era o “Pague um, Leve Três”, por conta do som vindo das salas à direita e à esquerda.
Quando o consultor falava um pouco mais alto que o normal (como eu e o meu amigo Marcelo Martinovich), certamente o resultado era esse. 

Mas a extrema proximidade tinha também outros efeitos. Por exemplo, durante um curso que eu ministrava sobre administração de equipes de vendas, temas como entrevista de vendedores, zoneamento e setorização, critérios de comissionamento estavam sendo tratados.
As turmas eram sempre lotadas. O Sebrae já começou com preços muito mais acessíveis do que as entidades da época, incluindo algumas onde um curso com conteúdo semelhante custava 2 ou 3 vezes mais.

Mesmo assim percebi logo no primeiro dia, nas fileiras da frente, um rapazinho miudinho, magérrimo, branco pálido e de grossos óculos, que prestava uma atenção enorme e anotava furiosamente tudo. Nunca tinha visto tamanho interesse.

Segundo dia, tudo indo bem, atividades de grupo, jogos, simulações… na hora do intervalo o rapazinho me aborda e comenta:
Puxa, professor, interessante mesmo sua aula. Que hora você fala sobre Fluxo de Caixa?
Nenhuma. – respondi – O curso de Fluxo de Caixa é o da sala ao lado.

O coitado tinha perdido um dia e meio de um curso de cinco dias. Mas o Marcelo – esse que fala tão alto quanto eu – compreendendo a situação que lhe relatei ainda durante o intervalo, se desdobrou e tratou para que nosso querido participante tivesse o conteúdo integral.

Bons tempos do comecinho do Sebrae com “S”. A proximidade não era só das salas, todos nos conhecíamos e convivíamos mais. Final de curso tinha sempre ida à pizzaria. Alunos e consultores. O Sebrae foi crescendo, divisórias melhorando, as unidades e as salas foram se espalhando pelo Brasil inteiro.
Sorte do empresário da pequena empresa.

Mas nós, consultores, também espalhados pelo país, nos vemos muito menos.
Será que estou ficando saudosista?

 

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Sobre o autor

André Ganzelevitch

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André Ganzelevitch é consultor Empresarial e Profissional de Treinamento desde 1981.É autor de mais de 60 títulos de Programas de Treinamento, Workshops e Palestras para diversas entidades de apoio empresarial, para aplicação presencial e à distância.

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