Dicas&Toques 106 – “Causus” de Consultor III – Sem apostila, sem flip-chart… ?

D&T70

Uma antiga entidade associativa de São Paulo e alguns escritórios distritais em bairros da cidade, certa vez me enviou a um deles, no bairro de Pinheiros, para ministrar um curso de Telemarketing.
Anos 90, muita empresa iniciando essa atividade, turmas lotadas em cursos de 4 a 5 noites.

Ao chegar ao bonito sobrado da distrital, fui levado a uma sala com uma enorme mesa de reunião que ocupava quase todo o espaço.
Claro que achei estranho e perguntei pela sala de treinamento, mas a secretária local me informou que naquele escritório não havia tal sala. Só a sala de reunião mesmo.
Ao saber do número de participantes e contar as cadeiras disponíveis argumentei com a moça da impossibilidade de fazer o curso naquele espaço.
Primeiro porque a mesa comportava 16 pessoas, talvez 20 meio apertadas, mas em formato de reunião, o que obviamente era inadequado para as dinâmicas de grupo. Segundo porque, segundo ela me dizia, havia mais de 30 inscritos.
Mansamente ela me informou que colocariam cadeiras por trás das que já estavam lá, formando assim um segundo “circulo” externo, porém com as apostilas apoiadas em pranchetas improvisadas, já que não havia cadeiras próprias para sala de aula. Ou seja, formar subgrupos de trabalho ficaria quase impossível, de tão apertado.
Ao me apresentar o material, a moça me disse com orgulho que tinha feito até mais do que o número de inscritos, porque assim eu teria uma margem de segurança (??).
Mas bastou abrir uma das apostilas para ver que o conteúdo era do curso de Contabilidade Básica e não de Telemarketing. Sem se abalar, ela me diz:
– Alguém na sede deve ter se enganado. Mas o senhor vai começando com essa apostila mesmo que depois eu providencio a outra.
Diante do meu argumento de que era impossível usar uma apostila de contabilidade num curso de telemarketing, ela fez uma cara feia, se declarou inocente no erro, entregou-me a chave da distrital, que ficaria comigo a semana toda, virou as costas e foi embora.
Em poucos minutos um funcionário começava a trazer as cadeiras adicionais enquanto eu tentava me refazer da desagradável “acolhida” e pensava como iria me virar num espaço inadequado, com o material errado.
Não havia quadro branco. Apenas um cavalete de flip-chart. Folheando as páginas, constatei que não havia uma única pagina em branco. Absolutamente todas, já escritas. Quem já usou flip-chart sabe que nem sempre é possível usar o verso das páginas, pois a tinta dos pinceis migra para a parte de trás.

No começo dos anos 90 poucas pessoas tinham celular. Eu ainda não tinha um, embora talvez não adiantasse muito. Afinal, ligar para quem na sede após as 18 horas?

Os alunos foram chegando, acomodando-se como podiam. Ajeitaram-se ali 34 pessoas. Mais que o dobro do que a inadequada mesa comportava. Durante 3 dias dei curso sem apostila, sem flip- chart, numa sala apertada e imprópria.
Na quinta, finalmente a apostila certa chegou e trocaram as folhas do flip-chart.
É preciso “ser de circo” como dizem, para manter uma turma motivada e sem desistências nessas condições. Consegui. Suando frio, é verdade.

Na sexta, para finalizar o curso, apareceu lá um diretor que pediu para dirigir-se à turma. Coisa política, típica de entidades associativas, tudo bem. Mas eu tinha obrigação de preveni-lo para o fato de que talvez não fosse muito bem vindo.
O discurso dele não durou 3 minutos. Fez a bobagem de perguntar a opinião dos participantes sobre o evento… foram longos e penosos minutos de um político calado, ouvindo.

Na semana seguinte recebi um pedido de desculpas da coordenação dos cursos e, para meu alívio, um elogio, em função das avaliações dos alunos.
Nunca voltei a essa distrital, mas dizem que tem hoje uma das melhores estruturas para treinamentos. Tomara.

 

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Sobre o autor

André Ganzelevitch

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André Ganzelevitch é consultor Empresarial e Profissional de Treinamento desde 1981.É autor de mais de 60 títulos de Programas de Treinamento, Workshops e Palestras para diversas entidades de apoio empresarial, para aplicação presencial e à distância.

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