Dicas&Toques 110 – “Causus” de Consultor VII – As Tias da Aluna e as Normas.

D&T70

Em cidades muito pequenas pelo interiorzão deste Brasil, quando se chega para uma semana de treinamento é comum, no primeiro dia, receber uma chave da sala onde ocorrerá o curso e devolvê-la na sexta-feira quando, só então a secretária ou alguém da entidade local volta para encerrar as atividades.
Como as estruturas são muito pequenas, não raro com apenas uma única funcionária, fica difícil manter alguém todas as noites disponível.

Mas isso não significa desatenção. Ao contrário, em muitas cidades parece que, como uma espécie de compensação, a fartura de biscoitos salgados e doces, refrigerantes e sucos disponíveis é enorme. Geralmente são guardados em uma pequena copa que nos é apresentada logo na chegada, junto com a entrega das apostilas, pincéis de quadro branco, controle de ar condicionado, etc.

Mas há outros hábitos nas regiões mais remotas do Brasil que muitas vezes desconhecemos e acabamos por interpretar de forma inadequada. Numa dessas longínquas cidades, o curso foi muito bem na primeira noite. Tão bem que na terça-feira uma aluna apareceu sorridente e me apresentou duas senhoras como tias dela, com as quais tinha comentado de forma tão entusiasmada sobre o curso que elas resolveram vir também.

Eu, consultor paulistano, atento às regras e procedimentos, fiquei meio sem saber como lidar com a situação. Iniciei a aula, as tias participaram alegremente dos exercícios, dinâmicas, intervalo cheio de animadas conversas com todos os demais alunos, pois em cidade pequena todos se conhecem.

Após o intervalo, a aluna me pede duas apostilas adicionais, para entregar às tias.
Eu informei que elas podiam acompanhar o curso, mas não receber apostilas, pois não estavam inscritas nem haviam pago para participar formalmente do programa.
Constrangida a aluna se afastou e voltou ao grupo de trabalho.
Eu fiquei também constrangido, pois percebi o olhar frustrado das duas senhoras que, infelizmente, não voltaram na quarta-feira nem em qualquer outro dia.

O curso foi bem avaliado. Mas esse episódio me deixou uma dúvida que me atormentou durante anos.
Em regiões onde um simples curso noturno é um evento importante, talvez único em muitos meses sem qualquer outra novidade, trazer algum familiar é uma clara demonstração de aprovação e até de aceitação naquela coletividade.
Por outro lado, pelas regras básicas de qualquer evento, só tem direito ao material quem está formalmente inscrito para participar.
Mas fazer valer as normas constrangeu as tias da aluna, a aluna e talvez um ou outro participante que teria achado que não custava nada ceder mais duas apostilas para as entusiasmadas senhorinhas.

O que você teria feito no meu lugar? Entregaria duas apostilas em nome das boas relações e entusiasmo geral ou faria valer a norma?

 

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Sobre o autor

André Ganzelevitch

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André Ganzelevitch é consultor Empresarial e Profissional de Treinamento desde 1981.É autor de mais de 60 títulos de Programas de Treinamento, Workshops e Palestras para diversas entidades de apoio empresarial, para aplicação presencial e à distância.

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